terça-feira, 23 de abril de 2013

Cartas pra Ju #2, ou Relato atrasado de uma desneCesárea.

"Oi Filha,

Hoje a mamãe veio desabafar, falar um pouquinho sobre coisas de adultos. Coisas que não fazem o menor sentido pra ti, mas eu acho que o mais importante pra nossa relação ser perfeitamente linda, é a sinceridade. E eu vou ser sincera. 

Eu não tive o parto que eu quis. Eu não tive opção. Podem falar que sim, podem falar que quem assinou os papeis fui eu, que eu poderia ter batido o pé, e falado não. Mas quando a gente ta esperando uma coisa tão lindo como você, a gente fica sensível demais, sem personalidade, influenciável demais. E eu fui influenciada. Fui influenciada por uma médica cesarista que nem deve ter achado os teus batimentos, e disse que eles estavam baixos. Influenciada pelo calor do momento, e pela sala de espera lotada. Fui influenciada pela greve dos funcionários da saúde. 

Eu li essa carta, e chorei. Chorei me colocando no lugar dela, e chorei por perceber que eu não preciso. Que eu já estou la. Chorei por perceber que somos tantas que passam por isso, sem a necessidade. Chorei por lembrar daqueles momentos em que nós duas saímos da sala de cirurgia, contigo chorando na minha perna. Sim, eles acham que o contato da mãe com o bebê é importante, mas te colocaram a chorar nas minhas pernas, e eu nem poderia levantar a cabeça pra te olhar. Mas vamos voltar ao começo. Ou pelo menos aonde essa pequena historia da nossa vida começou.

Eu engravidei no susto, tu sabe, todo mundo sabe. Foi tenso no começo, mas passei por todas as dificuldades com força e com um sorriso no rosto. Comecei o acompanhamento com a minha ginecologista até então. E quando eu li aquela carta, lembrei na hora de todas as fotos que tinha no consultório dela. Quatro quadros grandes, cheio de fotos de salas cirúrgicas. Por que foi disso que eu lembrei. No momentos eu só conseguia visualizar o mar de uniformes azuis, Todos com o mesmo padrão de roupas, todas as mães literalmente amarradas à cama. E não era desse jeito que eu queria te conhecer. Mas foi assim, e só hoje eu consigo entender tudo que aconteceu.

Sim filha, nós fomos ABUSADAS. Abusadas por uma maternidade que não pensa na saúde dos pacientes, mas no dinheiro deles. Por uma maternidade que fez a gentileza de "oferecer um quarto já que as enfermarias estão lotadas" e querer cobrar depois. Uma maternidade que fez uma mãe SAIR ANDANDO 24 HORAS APÓS TER PASSADO POR UMA CESARIANA, pra desocupar o tal quarto gentilmente oferecido com todo amor e carinho (#SQN) por eles. E eu andei, contigo no meu colo, toda linda. Devia ter saído pela porta da frente, ido embora,  e passar a noite no conforto da nossa casa.

Devia escrever pra essa GO, pra lembrar que em uma das consultas ela, sabendo que eu queria parto normal, me passou o valor da cesariana. "em média 5 mil reais" - "Mas eu tenho convênio" - "o convênio não cobre meus honorários!" Devia ter deixado dela naquele momento, mas estou deixando agora. Estou deixando 5 meses e 11 dias depois de encontrar ela na recepção dessa tal maternidade, e ela sorrir pra mim e falar "Viu, devia ter escolhido o dia". 

E digo que deixo dela agora, por que só hoje eu parei de chamar ela de "minha GO". Ela agora é só mais uma profissional que eu não indico a mais ninguém. Por que eu queria saber mesmo qual seria o seu tempo, qual seria a sua verdadeira data de aniversário, com quantos quilos você realmente iria nascer, e com quantos centímetros.

E se tudo isso não fosse suficiente, minha cesariana dói todos os dias, a cicatriz é horrível,  mesmo tendo seguido as indicações médicas e passado, durante todos os dias até hoje( e ainda passo, na esperança de alguma coisa mude), a tal pomada cara que a tal médica (que eu nem lembro o nome agora. Legal né, nem lembro o nome da infeliz que estava no plantão) indicou. É uma cicatriz horrível, que não deixa eu esquecer tudo que aconteceu. 

Devia ter ouvido o meu EU, de não só ter chorado na recepção, mas também ter ido embora, consultado um outro profissional, alguém que não estivesse interessado apenas nos mil e duzentos reais pagos pelo meu convênio ao obstetra que fez a minha cirurgia. 

Eu não me arrepende de você meu amor. Na verdade você foi, sem clichê, a melhor coisa que me aconteceu. Mas me arrependo como eu deixei você vir ao mundo. Como eu deixei te arrancarem de mim, de forma fria e dolorosa, que até hoje esta marcada em mim, e vai ficar para sempre. 

Mas isso não faz eu te amar menos, eu te querer menos, eu te curtir menos. Bem pelo contrário. Faz eu dar valor a você, por que independente de como as coisas acontecerem, nós estamos aqui, juntas e felizes. Mas não podemos apagar, e muito menos deixar que continua acontecendo esse tipo de coisa. Pois é a falta de informação, a impunidade e a descrença que fazem com que esse tipo de abuso aconteça todos os dias. Quero um pais melhor, um mundo melhor, pra poder confiar mais nas pessoas, e que a saúde e a qualidade de vida não sejam tratadas como mercadoria.

E é assim, quem sabe eu ainda escreve pra Sra Elaine(pois doutor pra mim, é quem faz doutorado, e até onde eu sei, ela não fez). Quem sabe eu faça alguma coisa, ou quem sabe eu só fiquei reclamando por aqui (afinal o blog serve pra isso também , mas fica a mensagem, e o registro, pra que esse tipo de coisa não passe em branco, não seja esquecida ou deixada de lado. E quando tu tiver idade pra entender, saber exatamente como as coisas aconteceram e tome as suas próprias decisões.

Beijos e mais beijos"

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